O conhecimento humano vem crescendo e vem se tornando cada vez mais especializado. À medida que o conhecimento cresce e a especialização se estende, mais complicado se torna o nosso acesso a esse monumental acervo.
A mente humana não funciona não opera por ordenamento alfabético ou numérico. Ela opera por associação. Quando ela apreende um item, ela salta imediatamente para o próximo que lhe é sugerido por associação de idéias, em função de algum processo complexo de elaboração de “trilhas” que é executado pelo seu cérebro. Esse processo de associação, porém, tem alguns aspectos negativos: as trilhas se apagam, os itens e as associações que produzem não são permanentes, a memória é transitória. Contudo, a velocidade da ação, a complexidade das trilhas que nos levam de uma idéia a outra, o nível de detalhe das imagens mentais, tudo isso é mais assombroso do que qualquer outro fenômeno que a natureza possa nos oferecer.
O ser humano não será capaz de duplicar esse processo artificialmente, mas ele certamente é capaz de aprender com ele — e, em pequenos aspectos, até mesmo de aperfeiçoá-lo. A primeira coisa a chamar a atenção no processo é a forma de seleção. A seleção de idéias por associação, em vez de por ordenamento alfabético ou numérico, pode ainda vir a ser automatizada. Mas dificilmente será possível igualar a velocidade com que a mente humana faz associações, estabelecendo trilhas entre idéias. Entretanto, certamente será possível ultrapassar a mente humana em relação à permanência e a clareza dos itens recuperados do registro de idéias.

Consideremos um dispositivo futuro para uso individual, que é um misto de arquivo e biblioteca. Esse dispositivo precisa de um nome: vamos chamá-lo de “memex”. Um memex será um dispositivo em que o indivíduo armazenará seus livros, seus registros, suas anotações, suas comunicações. O dispositivo será mecanizado de modo a poder ser consultado com extrema velocidade e flexibilidade. Digamos que seja um suplemento íntimo à nossa memória: uma grande expansão da memória pessoal.
Um memex será, basicamente, uma escrivaninha — embora, presumivelmente, possa ser operado a distância. Em cima da escrivaninha haverá uma tela inclinada, em que vários materiais poderão ser exibidos (“projetados”) para leitura conveniente. Na frente da tela haverá um teclado e conjuntos de botões e manivelas. O dispositivo terá capacidade de armazenamento virtualmente ilimitada (digamos que, se o indivíduo introduzisse nele 5.000 páginas por dia, ainda assim levaria anos para enchê-lo). Dados os materiais usados para armazenamento e as técnicas de compressão, o espaço devotado a armazenamento não precisará ser grande. Além da tela, do teclado e do espaço para armazenamento, o memex terá mecanismos para recuperar informações.
O conteúdo informacional do memex será, em sua maior parte, comprado pronto: livros de todos os tipos, fotografias, periódicos, jornais, etc. Eles serão adquiridos em microfilme e inseridos no dispositivo. A correspondência será filmada e colocada lá. E o indivíduo poderá inserir materiais diretamente, usando o teclado ou usando uma espécie de lousa onde ele escreverá a mão. Qualquer coisa escrita nessa lousa, ou colocada sobre ela (como uma foto ou um memorando), será fotografada e armazenada no quadro seguinte do microfilme virgem do memex.
Haverá, naturalmente, formas de consultar o material inserido no memex usando técnicas convencionais de indexação. Se o indivíduo quiser consultar um livro específico, bastará digitar seu título e a página de rosto do livro será exibida na tela. Materiais freqüentemente utilizados poderão receber códigos mnemônicos, de modo que o simples apertar de uma tecla trará o material desejado para a tela. Além disso, as manivelas poderão ser usadas para passar os olhos rapidamente pelo material — digamos, por um livro — para frente e para trás. Um botão levará o leitor imediatamente para a primeira página, outro botão, para a última. Qualquer livro da coleção poderá, assim, ser consultado muito mais facilmente do que acontece em uma biblioteca. Na tela poderão ser sobrepostas várias imagens. Pelo teclado, ou usando algum tipo especial de caneta, o indivíduo poderá acrescentar anotações e comentários nas margens do texto lido.
Até aqui, o sistema descrito é relativamente convencional. Contudo, ele deverá permitir o estabelecimento de índices associativos, cuja idéia básica é fazer com que um item selecione, imediata e automaticamente, um outro, com o qual foi associado. Esta será a característica essencial do memex. Esse processo de ligar um item ao outro é o que será importante.
Quando o indivíduo desejar construir uma associação, ele dará um nome à trilha de associações e registrará esse nome em um livro de códigos e, usando o teclado, no próprio memex. O indivíduo trará para a tela os itens que quer interligar e, usando um indicador voltado para um de vários espaços em branco em sua parte inferior, os interligará. Em cada um dos itens interligados aparecerá, no que era um espaço em branco, o nome dado à trilha de associações. O memex se encarregará de manter a ligação dos itens associados, mesmo que eles estejam armazenados em locais completamente diferentes dentro do dispositivo. Assim sendo, cada vez que o indivíduo visualizar um dos itens, saberá, pelos nomes colocados na parte inferior, que há outros itens associados àquele, e será capaz de imediatamente recuperá-los, apertando um botão. Se houver muitos itens associados, o indivíduo poderá indicar que quer consultá-los usando as manivelas, como se eles estivessem dispostos de maneira seqüencial e formassem um novo livro. Contudo, continuará a existir apenas uma cópia de cada item e um mesmo item poderá fazer parte de várias trilhas associativas.
As aplicações da ciência e da tecnologia ajudaram o ser humano a fazer desta terra uma casa bem abastecida, e o estão ajudando a viver nela de maneira sadia. Mas essas aplicações também lhe permitiram jogar multidões de pessoas umas contra as outras, com armas cruéis nas mãos. Apesar disso, a mesma ciência e tecnologia podem, ainda, ajudar o ser humano a dominar o grande registro de suas idéias e a crescer em sabedoria usando a experiência da raça humana. Talvez ele pereça em conflito, antes que consiga aprender a usar essa experiência acumulada para o seu próprio bem. Mas seria uma infelicidade extrema que o processo terminasse assim, ou que hoje perdêssemos a esperança de que ele possa evoluir de maneira diferente.
Trecho do ensaio “As We May Think” (Como podemos pensar), de Vannevar Bush, 1945